Do sintoma à causa provável. É o mesmo raciocínio que usamos no
diagnóstico, na ordem em que descartamos as hipóteses.
Leque irregular: sai torto, em meia-lua, mais pesado de um lado, ou em formato de rabo de peixe (mais tinta nas pontas que no centro)
1) Furos dos 'chifres' (cornetas) da capa de ar parcial ou totalmente obstruídos por tinta seca — é a causa em mais da metade dos casos, e a assinatura é simples: gire a capa 180°; se o defeito virar junto com a capa, o problema é capa/ar; se o defeito ficar parado, o problema é bico/agulha. 2) Bico com rebarba, amassado ou com resíduo curado no orifício de saída — costuma dar leque com falha fixa sempre do mesmo lado, independente da rotação da capa; acontece muito em pistola que caiu ou que foi limpa com arame/agulha de metal. 3) Bico frouxo ou mal assentado, deixando o jato descentrado em relação à capa. 4) Ponta da agulha desgastada/ovalizada por abrasão de primer e massa, tirando a concentricidade do fluido. 5) Face interna da capa suja de tinta acumulada nas bordas, desviando o ar de atomização. Diferencial importante: leque irregular por entupimento aparece e piora ao longo do dia; leque irregular por bico danificado é constante desde a primeira passada e não melhora depois da limpeza.
Pistola goteja/pinga tinta pelo bico com o gatilho solto
1) Sede do bico ou ponta da agulha com resíduo seco impedindo a vedação metal-metal — sempre teste primeiro: limpe com solvente adequado, seque, encha a caneca com solvente e observe 1 minuto; se parar de pingar, era sujeira. 2) Ponta da agulha desgastada, riscada ou empenada, e/ou sede do bico batida — nesse caso o gotejamento volta em minutos e a regra de bancada é trocar bico e agulha SEMPRE em par (o par assenta junto; agulha nova em bico gasto continua vazando). 3) Mola da agulha fraca, mal montada ou com o regulador de fluxo apertado demais impedindo a agulha de recuar totalmente ao repouso. 4) Gaxeta (empanque de teflon) da agulha com a porca apertada demais, prendendo a haste e não deixando a agulha voltar; sintoma associado é gatilho 'lerdo' voltando devagar. 5) Bico solto — a rosca do bico afrouxa com vibração e o conjunto perde o assentamento. Diferencial: pingo lento e constante = vedação bico/agulha; pingo só depois de soltar o gatilho, seguido de parada, = agulha voltando devagar (gaxeta/mola).
Ar vazando pela capa continuamente, mesmo com o gatilho solto e a pistola parada
1) Vedação da válvula de ar (o'ring/sede do pino da válvula) endurecida ou cortada — típico de pistola que ficou de molho no thinner: o solvente ressecou a borracha. 2) Sede da válvula de ar suja, com tinta ou cavaco impedindo o fechamento. 3) Mola da válvula de ar fraca ou montada fora de posição depois de um reparo malfeito. 4) Haste da válvula riscada/empenada por queda. 5) Gatilho travado por tinta seca no eixo, mantendo o pino levemente pressionado — verifique antes de abrir a válvula, é o teste mais barato. Diferencial de defeito parecido: vazamento pelo corpo/rosca do engate é ar escapando fora da capa (passe espuma de sabão); vazamento pela capa com gatilho solto é sempre válvula de ar.
Tinta vazando pela haste da agulha, escorrendo por trás do corpo, na região do gatilho
1) Gaxeta/empanque de teflon da agulha ressecada, achatada ou rasgada — item de desgaste, é a causa dominante. 2) Porca da gaxeta frouxa (vibração do trabalho afrouxa) — reaperte primeiro, com a pistola cheia de solvente, até parar de vazar sem travar o gatilho. 3) Haste da agulha riscada ou com tinta curada aderida, que corta a gaxeta nova em poucos dias — se você trocou a gaxeta e vazou de novo rápido, o problema é a agulha, não a gaxeta. 4) Corpo da pistola com o alojamento da gaxeta ovalizado por reaperto excessivo repetido. 5) Uso de tinta base d'água em pistola com gaxeta de material incompatível.
Aparecem crateras, olhos de peixe, manchas de água ou névoa de óleo no filme de tinta
1) Ar contaminado — dreno do reservatório do compressor não é feito e a água acumulada é arrastada pela linha; em Brasília o pessoal relaxa na seca e é justamente na virada para o período chuvoso que a oficina começa a perder peça. Teste: sopre ar da linha por 30 segundos contra uma folha de papel branco a 20 cm; qualquer mancha translúcida condena o ar. 2) Filtro/separador saturado ou instalado no lugar errado — filtro tem que ficar afastado do compressor, depois de um trecho de linha que permita o ar esfriar, senão a água ainda está em forma de vapor quando passa pelo filtro e condensa depois dele. 3) Elemento coalescente vencido (é consumível, satura mesmo sem sujeira aparente). 4) Compressor passando óleo por anéis/segmentos gastos — aí a mancha no papel é oleosa e não evapora. 5) Silicone/desmoldante/cera na peça, ou mão contaminada — diferencial clássico: contaminação da linha aparece em todas as peças do dia; silicone aparece em pontos localizados e repete no mesmo carro. 6) Mangueira de ar velha por dentro, soltando resíduo.
Pistola cospe tinta, jato sai pulsando e a caneca borbulha quando se puxa o gatilho
1) Bico frouxo ou sem assentamento na sede — a pistola aspira ar pela rosca do bico e joga para dentro da caneca; é a primeira coisa a apertar. 2) Respiro da tampa da caneca entupido com tinta seca, criando vácuo e alimentação intermitente — teste: solte um pouco a tampa e veja se o jato normaliza. 3) Nível de tinta baixo trabalhando com a pistola muito inclinada (falso defeito, muito comum em teto e caixa de roda). 4) Sede do bico danificada/riscada, que não veda nem com aperto correto. 5) Filtro/coador da caneca entupido, estrangulando a passagem. 6) Tinta com pele ou grumos, não coada. Diferencial: se borbulha na caneca = entrada de ar no circuito de tinta (bico/sede); se não borbulha mas sai pulsado = alimentação (respiro, nível, filtro).
Não sai tinta, ou sai muito pouco mesmo com o gatilho todo puxado
1) Regulador de fluxo (parafuso traseiro) fechado — parece piada, mas é a causa nº 1 em equipamento que voltou da locação ou trocou de operador. 2) Canal de tinta obstruído por tinta curada, principalmente pistola guardada sem limpeza no fim do dia (uma noite basta com PU ou verniz). 3) Filtro da caneca ou coador entupido. 4) Respiro da tampa totalmente fechado, criando vácuo que trava a alimentação. 5) Agulha travada pela gaxeta apertada demais ou por tinta seca na haste — o gatilho fica duro. 6) Bico entupido no orifício de saída — nunca desentupir com arame de aço, isso deforma o assento e cria o próximo defeito (leque torto permanente); use estilete de latão/nylon ou banho de solvente.
Acabamento com casca de laranja, aspereza, pouca cobertura e alto consumo de tinta
1) Pressão dinâmica errada na entrada da pistola — medida com o gatilho acionado, não parada; quase todo mundo regula o manômetro do compressor e esquece que a mangueira longa e fina derruba pressão no caminho. Use manômetro/regulador na entrada da pistola e ajuste conforme a etiqueta do fabricante do equipamento. 2) Diluição fora da ficha técnica do produto e/ou diluente com faixa de evaporação errada para o clima — em Brasília, dia seco e quente com diluente rápido dá secagem no ar (pó seco e casca de laranja) e dia chuvoso com diluente lento dá escorrido e véu branco. 3) Distância pistola/peça e sobreposição de passes incorretas — trabalhar longe demais atomiza no ar; o padrão de bancada é manter a distância recomendada pelo fabricante da pistola (na maioria das HVLP de gravidade, na casa de 15 a 20 cm) com cerca de 50% de sobreposição, sempre perpendicular à superfície. 4) Bico maior do que o produto pede — bicos maiores (por volta de 1,7 a 1,8 mm) são para primer e produtos de alta viscosidade; base e verniz normalmente pedem bico menor (faixa de 1,3 a 1,4 mm) e laca de móveis, menor ainda. 5) Capa de ar desgastada ou pistola convencional sendo cobrada como HVLP. Observação técnica: HVLP é definido por baixa pressão na capa de ar (limite de referência de 10 psi / ~0,7 bar na capa), então elevar a pressão para 'melhorar' a atomização descaracteriza a pistola e joga tinta fora.