O diagnóstico correto é o que separa um reparo que dura de um que volta. Antes de qualquer orçamento, abrimos o equipamento e verificamos o que efetivamente falhou — e o que apenas foi consequência da falha principal.
"Toma choque na carcaça" ou "desarma o disjuntor DR toda vez que liga"
Fuga de corrente, e é o defeito que exige a máquina parada imediatamente. (1) Causa mais comum e mais banal: umidade e pó condutivo dentro do motor - máquina que dormiu na obra sob sereno, ou que trabalhou em corte com água/refrigeração; muitas vezes uma secagem em estufa resolve e a fuga some, o que confunde quem conclui "consertou sozinho"; (2) verniz do induzido ou do estator carbonizado por superaquecimento, fazendo fuga para o núcleo - aqui não tem secagem que resolva, o megômetro entrega; (3) cabo/rabicho com isolação rompida na entrada da carcaça encostando na estrutura metálica - checagem obrigatória antes de condenar motor; (4) fio interno prensado na hora da montagem, um clássico de máquina que já passou por assistência de esquina; (5) prensa-cabo quebrado deixando o cabo mexer e desencapar. Diferença prática que o cliente precisa entender: DR desarmando é o equipamento de segurança funcionando; carcaça energizada em máquina classe II (dupla isolação, aquela do símbolo do quadradinho dentro do quadradinho) significa que a dupla isolação já foi violada por dentro.
"O mandril travou com a broca dentro" ou "a broca escorrega, o mandril não aperta mais"
(1) Mandril de aperto rápido com as castanhas gastas/arredondadas por apertar sempre com a mão em brocas de haste lisa sob carga - a broca gira dentro do mandril, lixa a castanha, e a partir daí escorrega sempre; sintoma diagnóstico é a marca circular polida na haste da broca; (2) pó e ferrugem dentro do mecanismo travando o anel - comum em furadeira que trabalhou em concreto sem nunca ter sido soprada; (3) broca agarrou no furo e o torque apertou o mandril além do que a mão desaperta (isso é normal em impacto, não é defeito); (4) mandril de coroa (com chave) com a cremalheira espanada; (5) mandril soltando do eixo junto com a broca, porque o parafuso interno de rosca esquerda soltou - muita gente não sabe que esse parafuso é rosca invertida e espana tentando abrir para o lado errado. Em martelete SDS, o quadro equivalente é a broca não travar mais no encaixe: aí o problema é a esfera/mola de retenção do porta-ferramenta gasta, e não o mandril.
"O martelete/furadeira de impacto gira mas não bate mais" ou "bate fraco"
Separe primeiro os dois mecanismos, porque o cliente chama tudo de martelete. Em furadeira de impacto (impacto por catraca): (1) os dois discos dentados de impacto ficaram lisos por uso - é desgaste normal e o sintoma é a máquina fazer o barulho de catraca mas não avançar no concreto; (2) o cliente está com a chave no modo só furar - sempre confirme antes de abrir. Em martelete/rotomartelo (impacto pneumático por pistão): (1) anéis de vedação (o-rings) do pistão e do martelete ressecados/vencidos, que é o defeito mais comum - a câmara de ar perde compressão e a batida some ou fica fraca, quase sempre acompanhada de aquecimento na frente da máquina; (2) rolamento oscilante/mecanismo excêntrico gasto; (3) graxa errada ou seca no compartimento do mecanismo (graxa comum não aguenta, tem que ser a graxa específica de martelete); (4) mola de retorno do pistão quebrada; (5) trava do seletor de modo desgastada, ficando entre posições; (6) broca SDS com a haste amassada/desgastada absorvendo a batida - antes de condenar a máquina, teste com outra broca, e você resolve uma parte considerável desses casos no balcão. Padrão de uso: martelete de linha profissional que só perfura fura muito e dura; o que arrasa a máquina é uso prolongado em modo demolição por quem comprou um perfurador leve para quebrar parede - serviço de rompedor em máquina de furar.
"A serra circular está puxando o corte, prende no meio e a máquina parece que vai parar"
A maioria desses chamados não é defeito elétrico. Ordem: (1) disco cego, empastado de resina ou com dentes de metal duro quebrados - o motor esforça, esquenta e o operador jura que "perdeu força"; olhe o disco antes de qualquer coisa; (2) disco errado para o material (número de dentes inadequado, disco de madeira em material errado); (3) cunha abridora/faca separadora ausente ou torta, e proteção inferior emperrada por serragem compactada - isso trava o corte e é o principal gerador de kickback, além de esconder um risco sério de acidente; (4) base empenada ou ajuste de esquadro/profundidade solto, fazendo o disco entrar torto e prender; (5) flanges sujos ou disco montado ao contrário; (6) só depois disso, causa elétrica: escova gasta ou rolamento travando, quando a perda de força existe mesmo em vazio. Diferencial simples: se a máquina em vazio atinge rotação normal e só sofre no corte, é acessório/ajuste; se em vazio já sobe devagar e ronca, é motor.
"A parafusadeira de impacto parou de dar aquele martelamento, só gira"
(1) Mecanismo de impacto sem graxa ou com graxa contaminada - a graxa do bloco de impacto é sacrificial e endurece com o calor do uso contínuo; sintoma é a máquina bater fraco e esquentar muito na frente antes de parar de bater; (2) esferas e canaletas do eixo (came) marcadas/escareadas por uso pesado, deixando o martelo sem retorno correto; (3) mola do martelo vencida; (4) em uso a bateria, bateria fraca/desbalanceada limitando o torque - a máquina não consegue chegar no ponto de acionar o impacto e o cliente interpreta como defeito mecânico, então teste com bateria cheia e sadia antes de abrir; (5) encaixe de 1/4" hexagonal (ou o quadrado, na de encaixe soquete) com folga/esfera de retenção gasta, que dá a impressão de perda de eficiência porque o acessório dança. Linha doméstica costuma nem ter mecanismo de impacto de verdade e ser só parafusadeira com embreagem - vale conferir o que a pessoa comprou antes de procurar defeito.
"Não liga, mas a bateria está boa e a luzinha acende" (ferramenta brushless a bateria)
Em brushless, o motor raramente é o culpado. (1) Placa de potência com MOSFET em curto - normalmente por sobrecarga repetida, por uso prolongado travando parafuso longo, ou por umidade; muitas vezes você vê a marca de calor na própria placa; (2) sensores Hall danificados ou com conector solto - o motor trepida, faz um ruído de "engasgo" e não parte, ou parte só às vezes e para o lado errado; (3) proteção eletrônica atuada por temperatura ou por sobrecorrente - a máquina simplesmente não responde e volta a funcionar depois de esfriar, o que é comportamento normal e não defeito; (4) terminais da bateria com pó, oxidação ou mola frouxa, gerando queda de tensão no pico de corrente e desligamento; (5) gatilho/módulo de comando, com o mesmo padrão de sujeira das máquinas com fio. Ponto comercial importante: em brushless de linha profissional a placa é uma peça cara e o reparo só compensa quando o resto da máquina está sadio; em brushless de linha barata, o custo da placa costuma inviabilizar o conserto.